1 Introdução

Este Projeto está construindo um corpus anotado, nas camadas bibliográfica, filológica e linguística, composto por relatos portugueses sobre o Brasil do
século XVI. Escolhemos três obras –  a “História da Província Santa Cruz” de
Pero Magalhães de Gandavo (1576), o “Tratados da terra e gente do Brasil” de
Fernão Cardim (1584) e “Notícias do Brasil”de Gabriel Soares de Sousa (1584), formando um conjunto de dezoito versões produzidas entre 1557 e 1925, entre cópias manuscritas, edições impressas e traduções. O Projeto é motivado pelo reconhecimento da importância linguística dessas obras, pela constatação dos
seus desafios na dimensão filológica e bibliográfica, e pela observação do
potencial de trabalho computacional encerrado na confluência entre esse
valor linguístico e esse desafio filológico.

Os relatos quinhentistas portugueses sobre o “novo mundo” foram alvos tradicionais da atenção dos estudos sobre a história social, política e cultural
do Brasil Colonial – de fato, a tradição (e profusão) de pesquisas fundadas nesses textos obriga novos estudos nessas áreas a justificarem-se menos pela relevância dessas obras, e mais pela pertinência de novas perspectivas sobre elas. Na área da linguística histórica do português, esses documentos não receberam, tradicionalmente, atenção comparável. Entretanto, isso tem mudado nos últimos anos, quando a pesquisa sobre a formação da língua portuguesa no Brasil passou a se voltar com mais intensidade para a documentação escrita por portugueses nos primórdios do período colonial, tomando-a como fontes priviliegiadas para nossa compreensão do estado da língua em sua chegada no novo continente – particularmente, a partir da implantação de grandes projetos dedicados à história da língua no Brasil nos anos 1990, como Mattos e Silva (1991), Galves (1998), Castilho (1998). Nesse contexto, o conjunto temático formado pelas primeiras narrativas portuguesas sobre os novos territórios americanos reveste-se de nova relevância para a história da língua, a exemplo da importância que sempre tiveram no campo da história social. Vemos surgir nesse contexto, por exemplo, os conjunto de trabalhos organizados pela Profa. Rosa Virgínia Mattos e Silva em torno da Carta de Pero Vaz de Caminha (Mattos e Silva, 1996); e, mais recentemente, os trabalhos lexicográficos de F. Gonçalves e C. Murakawa sobre a obra de Fernão Cardim (Goçalves & Murakawa, 2009, 2012; Gonçalves, 2007). Em meus próprios trabalhos – alguns deles abrigados em projetos coletivos acima lembrados, como Galves (1998, 2002, 2012) – também venho pesquisando a sintaxe dos relatos quinhentistas portugueses, em particular os de M. de Gandavo e de F. Cardim, textos cuja análise está na base da hipótese sobre a mudança gramatical sofrida pelo Português Brasileiro a partir do Português Clássico que defendi em Paixão de Sousa (2008 a/b, 2009, 2012).

Entretanto, o aprofundamento da investigação linguística sobre relatos quinhentistas esbarra em desafios filológicos importantes. As três obras focalizadas no presente Projeto, sobretudo, apresentam trajetórias editoriais singularmente complexas, que colocam em questão, até, o aspecto básico de sua autoria. Em uma pesquisa preliminar, cujo objetivo inicial era encontrar estudos críticos, edições filológicas confiáveis, e (idealmente) os manuscritos originais dos textos usados como fontes em estudos gramaticais, pude observar o caráter lacunar e disperso de seus campos bibliográficos. A primeira conclusão do levantamento (até agora, infelizmente, não desconfirmada), é que não há notícia segura sobre manuscritos originais de nenhuma das três. Registramos entretanto um conjunto de vinte e seis versões, entre cópias manuscritas, edições impressas entre os séculos XVI e XXI, e mesmo traduções relevantes – sendo vinte delas disponíveis em formato digital, o que pareceria animador. Entretanto, esse material digitalizado apresenta qualidade filológica muito variável – em sua maior parte, de fato, resumem-se a fac-similes digitais de qualidade duvidosa das principais edições impressas de cada obra. Além disso, essa documentação se encontra bastante dispersa bibliograficamente no âmbito digital: não há, por exemplo,  um mecanismo informático que reuna as informações sobre diferentes edições de cada obra – que dirá sobre sua fortuna crítica de cada uma, ou do conjunto temático formado pelos diferentes relatos. Deparo-me, assim, com um tríplice desafio, que motiva o início deste Projeto: observo documentos de imenso valor linguístico, com tratamento filológico incipiente, e dispersos pela rede mundial de computadores. Proponho, diante disso, um tratamento informático profundo para esse universo documental, em moldes inéditos: reuniremos as versões dispersas em uma rede lógica, produziremos edições filologicas digitais, e faremos um mapeamento da estrutura linguística de cada texto, que privilegiará a codificação das relações entre a sintaxe e a estrutura informacional e possibilitará o estudo comparado das diferentes versões de cada texto ao longo do tempo e das diferentes obras entre si. Este é um projeto de longo prazo, cujo produto mais visível será um portal reunindo as obras tratadas nesses moldes – um espaço de ligações lógicas entre diferentes camadas de anotação das obras, com acesso aberto e à disposição para diversos tipos de pesquisas.

No ano de 2015, darei início ao Projeto com o estudo linguístico detalhado de uma das obras da tríade, a “História da Província Santa Cruz”, desenvolvendo e aplicando o sistema de anotação linguística aprofundado a ser difundido posteriormente para as demais obras.


Histórias do Brasil:
Trajetória editorial e mapeamento linguístico de relatos de viagens quinhentistas em um corpus anotado de informações ligadas

Janeiro, 2015

Referências

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