2 Motivações e Visão geral

2.1 Sintaxe e história dos relatos quinhentistas: problemas preliminares
……2.1.1 O problema da relação sintaxe-estrutura informacional
……2.1.2 Os problemas na dimensão filológica dos textos

2.2 Proposta de abordagem no Projeto Histórias do Brasil


2.1 Sintaxe e história dos relatos quinhentistas: problemas preliminares

As observações que motivaram o Projeto fundam-se em uma trajetória de pesquisas iniciada em 2004, que moldou as hipóteses do trabalho e forneceu o ferramental metodológico para a condução da parte mais técnica da pesquisa. Nesta seção, procuro relatar os princiais avanços nessa trajetória, e, principalmente, os problemas nela enfrentados, que pretendo solucionar no Projeto – tanto na dimensão gramatical como na filológica.

2.1.1 O problema da relação sintaxe-estrutura informacional

A hipótese sobre a gramática do Português Clássico que motiva a análise linguística a ser realizada no Projeto é fruto de uma trajetória de reflexões sobre a relação entre a sintaxe e a estrutura informacional na mudança gramatical que faz surgir o Português Brasileiro e o Português Europeu contemporâneos iniciada já em meu trabalho de tese de doutoramento (Paixão de Sousa, 2004). Ali, apresentei um estudo longitudinal sobre a sintaxe de textos portugueses escritos por autores nascidos entre 1500 e 1800, a partir do qual observei pela primeira vez a relação entre a sintaxe da ordem (em particular, a posição dos sujeitos) e a estrutura informacional dos textos, defendendo que, no Português Clássico (1500-1600), toda construção com ordem Sujeito-Verbo correspondia a estruturas nas quais os sujeitos foram promovidos de sua posição básica, atendendo a requerimentos discursivos. Essa argumentação fundava-se na análise combinada da posição de sujeitos e colocação de clíticos, aspectos que continuaria a investigar nos anos seguintes em trabalhos com diferentes colaboradores – como Galves e Paixão de Sousa (2005), Galves, Britto e Paixão de Sousa (2005), publicações que viriam, de fato, a se tornar referências no campo da sintaxe diacrônica do português. A partir de 2010, essas investigações passaram a ser produzidas com dados obtidos graças aos avanços do projeto de anotação sintática do Corpus Tycho Brahe (Galves & Faria, 2010), formando uma nova base empírica, com dados em volume inédito (já em 2010, 17.594 sentenças sintaticamente anotadas, de onze textos datados de 1510 a 1802, totalizando cerca de meio milhão de palavras) e computacionalmente processados. As investigações com base nesses dados refinaram as hipóteses trazidas nos trabalhos anteriores, realizados por meio de busca manual de dados, e permitiram que estendessemos as argumentações para as sentenças sem clíticos. Alguns resultados foram apresentados em Galves e Paixão de Sousa (2010 e em curso), Galves, Cavalcante e Paixão de Sousa (2010), Cavalcante e Paixão de Sousa (2009, 2010).

Destaco, aqui, as duas conclusões mais relevantes dos trabalhos realizados com esses colaboradores: primeiro, o marco do século XVIII como fronteira de mudanças – já que tanto os padrões estatísticos referentes à colocação de clíticos como os padrões referentes à ordem geral dos constituintes maiores tem, aí, seu ponto de inflexão, que interpretamos como indicador da fronteira entre a gramática do Português Clássico e a gramática do Português Europeu. A segunda conclusão – e a mais importante, no contexto do atual Projeto – remete à natureza dessa mudança: ela incidiria, centralmente, nas propriedades da posição pré-verbal, que teria perdido sua propriedade de posição disponível para qualquer constituinte frasal com proeminência discursiva, para se tornar uma posição reservada para o sujeito. Em outras palavras, a mudança no século XVIII é a transformação de uma gramática não-SV na gramática SV do Português Europeu contemporâneo. Em trabalhos individuais, como Paixão de Sousa (2008 a/b, 2009, 2012), explorei a relação entre essas caracerísticas da sintaxe do Português Clássico e a sintaxe do Português Brasileiro contemporâneo, concentrando-me, nesse caso, em textos representativos do século XVI – em particular a partir da análise de propriedades semânticas da estrutura argumental dos textos, documentada em Paixão de Sousa (2008a), como mostro mais à frente.

Centralmente, portanto, em todos esses trabalhos, figura a hipótese de que a ordem de constituintes no Português Clássico é condicionada por fatores discursivos. Essa hipótese está solidamente ancorada nos resultados dos estudos quantitativos apresentados nesses trabalhos: nos sucessivos levantamentos, mostramos que, em textos representativos dos séculos XVI e XVII, a proporção de estruturas “XV” (na qual o constituinte inicial não é um sujeito) é muito elevada em comparação ao que medimos nos textos posteriores, e comparável ao que mostram os estudos sobre as chamadas “línguas V2”, por conta da elevada proporção de construções XVS (ou seja, com constituintes não-sujeitos pré-verbais, e sujeitos lexicais e pós-verbais) nos textos. A metodologia e os pressupostos teóricos de nossos trabalhos sobre a ordem no Português Clássico – realizados apartir de grandes bases de dados, nos quais buscamos os reflexos da mudança gramatical nos padrões estatísticos de aspectos sintáticos nos textos (em particular, a ordem) – filiam-nos à linha de investigações em sintaxe histórica no campo gerativo fundada em Kroch (1989, 1994, 2001), e que tem resultado em um conjunto importante de debates sobre a mudança gramatical em diferentes línguas (na história do inglês, por exemplo, Kroch & Taylor 1997; Pintzuk & Kroch 1989; Pintzuk & Taylor 2008; Pintzuk 1995, 2014; Taylor & Pintzuk 2012a).

Para além dos padrões de frequência de ocorrência dos dados, entretanto, a hipótese do condicionamento discursivo da ordem em nossos trabalhos não está apoiada em um debate teórico, e nem em uma análise exaustiva que demonstre, empiricamente, como esses condicionamento funciona nos textos. Apresentamos, apenas, algumas análises pontuais de ocorrências características, que parecem indicar o acerto da hipótese. Essas análises se fundam em duas observações intuitivas: primeiro, a observação de Galves (2002), no sentido de que a colocação de clíticos no texto dos Sermões de A. Vieira (1604) dependia da interpretação do sujeito pré-verbal como um “tópico” ou um “foco”; segundo, a observação de Paixão de Sousa (2004) no sentido de que os sujeitos pós-verbais nos textos clássicos não podiam ser interpretados como “focos” (como é o caso de VS no Português Europeu), e que os sujeitos pré-verbais podiam ser “focos” ou “tópicos” (definidos de modo muito amplo, a partir do critério tradicional do contraste “informação nova”/“informação velha”). Ao longo da trajetória, fomos abandonando a nomenclatura “tópico”/“foco”, e passamos a analisar as ocorrências apenas a partir do critério básico da verificação da menção dos referentes de cada constiuinte – pré- ou pós-verbal – no contexto próximo. Mantivemos, entretanto, a intução inicial: os referentes dos sujeitos pós-verbais podem sempre ser encontrados no contexto anterior das ocorrências, e os sujeitos pré-verbais são sempre ou menções inéditas, ou remissões contrastivas a referentes que se alternam no discurso. Os exemplos a seguir, de Paixão de Sousa (2004) e Galves e Paixão de Sousa (2010 e em curso), ilustram essa análise intuitiva quanto à ocupação da posição pré-verbal: em (a), contrastes em um contexto bem próximo (Deus/os homens); em (b) e (c), contrastes em sequências narrativas mais longas (cf. os contextos de (b)[1] e (c)[2]): Duarte Nunes/Jerônimo Nunes; o capitão-mór o brâmane:

(1) Exemplos de sentenças SV, com Sujeito em alternância de referentes

  1. Deus julga como Juiz;                   os homens  julgam como judiciarios.
    Deus julga a cada um pelo que é, os homens  julgam a cada um pelo que são.
    Deus julga-nos a nós por nós;       os homens  julgam-nos a nós por si. (Viera, Serm)
  2. Duarte Nunes      me avisa tem comprado sessenta peças de boa artilharia para as duas naus…
    Jerónimo Nunes  me escreveu hoje tivera carta de V. Ex.a. com recado (Vieira, cartas)
  3. O capitão-mor  lhe respondeu que os embaixadores tinham seguro para suas pessoas…
    O brâmene       lhe deu por isso seus agradecimentos (Pinto 1510)

Fundamentalmente, nas sequências em (1), a cada vez que um “novo” participante entra em cena, o sintagma que realiza seu referente aparece em posição pré-verbal. Ao contrário, nas construções VS, constata-se que os sujeitos correspondem a referentes já conhecidos no discurso anterior, e que não interpretamos como contrastivos quanto a algum referente imediatamente mencionado; veja-se (2), do mesmo texto que (1c) acima, com a ordem XVS (para bem compreender o exemplo, note-se, no contexto[3], que os dois sujeitos correspondem a um mesmo referente, i.e., Pero de Faria é o capitão):

(2) Exemplos de sentenças VS, com Sujeito em continuidade de referentes (Pinto, 1510)

  1. Ao mercador que me trouxe mandou   Pero de Faria dar sessenta cruzados …
  2. A mim me mandou                              o capitão agasalhar em casa de um escrivão da feitoria

Mais interessante é observarmos o que acontece com os constituintes não-sujeito, “X”, que aparecem antes do verbo nas construções XVS acima: a alternância se dá entre esses constituintes pré-verbais – da mesma forma como entre os sujeitos pré-verbais. Note-se, em (2) acima, o contraste entre Ao mercador e A mim: Ao mercador que me trouxe mandou Pero de Faria dar sessenta cruzados / A mim me mandou o capitão agasalhar em casa de um escrivão da feitoria. Análises como essa, aliadas ao trabalho quantitativos com os dados, levaram às afirmações de Galves e Paixão de Sousa (2010 e em curso) no sentido de que o estatuto de qualquer constituinte pré-verbal nos textos clássicos é de proeminência discursiva, sejam ou não sujeitos. Em Paixão de Sousa (2009, 2012), argumentei no mesmo sentido, defendendo que o aparecimento dos sujeitos em posição pré-verbal corresponde a uma alternância de referentes. Nesses trabalhos, salientei essa propriedade no texto de Fernão Cardim (Cardim, 1925[1584]), buscando mostrar como ele se organiza numa “dança” de referentes, na qual, a cada passo, um constituinte de interesse (sujeito, complemento ou outros) é trazido para a posição pré-verbal, como ilustrado em (3): note-se como os  referentes dos constituintes destacados à esquerda se alternam – Esta cobra/a cabeça/Esta [cobra]; e Este papagaio/de todas as cores/Estes [papagaios] – de modo que, nas terceiras orações em cada caso, um referente anteriormente mencionado, ao “voltar à cena”, realiza-se em posição pré-verbal:

  1. Esta cobra             he muito formosa,
    a cabeça                 tem vermelha, branca e preta, e assi todo o corpo.
    Esta                        he a mais peçonhenta de todas, anda de vagar, e vive em as gretas da terra
  2. Este papagaio           he formosissimo, e nelle se achão quasi todas as côres em grande perfeição,                                     sc, vermelho, verde, amarello, preto, azul, pardo, côr de rosmaninho, e
  3. de todas estas cores  tem o corpo salpicado, e espargido.
  4. Estes                          tambem fallão, e têm mais huma vantagem que he criar em casa, e tirar seus                                   filhos, pelo que são de grande estima.

De fato, em Paixão de Sousa (2009, 2012), tomei essa propriedade de saliência (que ali chamei de Proeminência à esquerda) como um dos aspectos centrais da gramática do Português Clássico no processo da mudança na direção do Português Brasileiro. Argumentei ali que a proeminência à esquerda causa um efeito importante se a analisarmos em combinação com outras duas propriedades dos textos clássicos – a elevada proporção de sujeitos nulos, e a forte associação entre a semântica argumental de agente e os sujeitos nulos; e que, combinando essas propriedades, poderíamos ter a chave para a reanálise que teria dado origem à gramática do Português Brasileiro. O efeito, em resumo, é que a organização frásica do Protuguês Clássico (fortemente condicionada pelo discurso; com grande independência configuracional no licenciamento de sujeitos nulos; e muitos sujeitos nulos agentes) causa dificuldades ao falante do Português Brasileiro na leitura dos textos – e, fundamentalmente, em certos casos a interferência da gramática brasileira tem um impacto na semântica argumental dos verbos. Os exemplos abaixo ilustram o que chamei de “reinterpretações” brasileiras, mostrando três de construções clássicas: (5), na ordem XVS; (6), ordem XV com sujeito nulo; e (7), apenas sujeitos nulos:

  1. A quinta capitania conquistou Pero do Campo Tourinho (Gandavo, 1576)
  2. Uma chamada Dona Urraca casou com o Conde Dom Reymão de Tolosa (Galvão, 1435)
  3.  quando vão para os apanhar, botão-lhes aquella tinta diante dos olhos (Cardim, 1584[1925])

Nos experimentos mostrados naqueles trabalhos, constatei que falantes do Português Brasileiro, ao interpretar essas construções, interpretam-nas sempre, e consistentemente, de modo diverso do autorizado pelo contexto. Em (5), interpretam [A quinta capitania] como sujeito; em (6), interpretam [Uma chamada Dona Urraca] como sujeito; em (7), interpretam que o sujeito nulo de [botão] está coindexado ao sujeito nulo de [vão] – i.e., ambos tem o mesmo referente. Nada disso parece correto, se considerarmos o contexto original das sentenças: em (5), [A quinta capitania] é complemento de [conquistar], e o sujeito é [Pero do Campo Tourinho]; em (6), [Uma chamada Dona Urraca] é complemento de [casar] (bem como [o Conde Dom Reymão de Tolosa]), e o sujeito é nulo – e remete a “el-rei” (cf. o contexto maior[4]); em (7), o sujeito nulo de [vão] tem como referente “peixes grandes”, e o de [botão] tem como referente “polvos” (cf. também o contexto maior[5]). Os esquemas abaixo mostram as sentenças em pares (a)/(b), onde (a) corresponde à interpretação autorizada pelo contexto, e (b) à interpretação brasileira:

    1. [A quinta capitania]-Obj conquistou [Pero do Campo Tourinho]-Suj
    2. [A quinta capitania]-Suj conquistou  [Pero do Campo Tourinho]-Obj
    1. [Uma chamada Dona Urraca]-Obj  [ø]-Suj casou com o Conde Dom Reymão de Tolosa
    2. [Uma chamada Dona Urraca]-Suj              casou com o Conde Dom Reymão de Tolosa
    1.  quando [ø]-i vão para [os]-ii apanhar, [ø]-ii botão-[lhes]-i aquella tinta diante dos olhos
    2.  quando [ø]-i vão para [os]-ii apanhar, [ø]-i botão-[lhes]-ii aquella tinta diante dos olhos

As interpretações brasileiras, ao “errarem” a interpretação das sentenças, tem dois efeitos: em alguns casos, modificam inteiramente a semântica dos eventos – é o caso de (8) e (10); mas em outros casos, alteração é mais sutil, consituindo uma mudança mais delicada na diátese do verbo, como no exemplo com [casar]. Aqui, na reinterpretação, “Dona Urraca” e “o Conde…” continuam “casando-se entre si” – mas na acepção não-ativa do verbo. Sugiro que casos como esse explicariam a reanálise que teria ocorrido na passagem do Português Clássico para o Brasileiro: tipificadamente, construções XV com sujeitos nulos agentes do Português Clássico são reanalisadas em construções SV, em uma reestruturação que corresponde ainda a uma mesma estrutura de evento em larga medida, mas (caracteristicamente), apagando o argumento “agente” da grade do verbo. Esse argumento se funda, também, em um trabalho de levantamento das diferenças entre as diáteses verbais no Português Clássico e Brasileiro (Paixão de Sousa, 2008a), no qual mostrei que diversos verbos que são usados com semântica não-agentiva no Português Brasileiro (além de casar, quebrar, queimar, entre outros) só aparecem com semântica agentiva nos textos clássicos; e que, além disso, em 84% das ocorrências desses verbos, o sujeito (agente) aparece nulo. Fundamentalmente, combinando isso à propriedade da “proeminência à esquerda”, o que se preveria, e que efetivamente acontece, é uma elevada frequência de construções com constituintes não-sujeitos e “proeminentes” à esquerda do verbo e sujeitos nulos (como “Dona Urraca casou com o conde”…). Segundo essa hipótese, os pontos de contraste entre o Português Clássico e o Brasileiro residiriam nas propriedades do sujeito nulo e da diátese dos verbos – no caso dos sujeitos nulos, considerando as restrições para seu licenciamento no PB, ligadas à configuração sintática de seu contexto imediato (como discutem Figueiredo e Silva 1996, Ferreira 2000 e Modesto 2000, entre outros); e no caso das diátestes, considerando a tendência para a alteração das diáteses verbais na direção da não-agentividade no PB, como mostraram Negrão & Viotti 2008 e Perini 2009). Ao contrário, o ponto em comum entre as duas gramáticas seria a proeminência discursiva dos constituintes na posição à esquerda (no caso do PB, como mostrado por Negrão 2000 e Modesto 2008, entre outros).

Essa hipótese desenhada em Paixão de Sousa (2008a, 2009, 2012), entretanto, permanece até o momento em um estatuto de “hipótese de trabalho”, razão pela qual, inclusive, não se encontra ainda publicada na forma de artigo científico. Ela esbarra, a meu ver, em alguns entraves importantes – sendo o maior deles o problema da definição exata e da verificação empírica consistente da propriedade da “proeminência discursiva” que sugeri estar atuante na ocupação da posição pré-verbal no Português Clássico. De fato, essa noção, que permeia todos os trabalhos citados aqui, em nenhuma oportunidade foi demonstrada de forma sistemática. Como vimos, nos trabalhos acima citados, alega-se a propriedade saliente da posição à esquerda com base nos padrões estatísticos da ordem e em análises textuais pontuais sugerindo que a saliência discursiva de um constituinte seria “capturada” observando-se a alternância de referentes em um determinado contexto; análises, sem dúvida, muito incipientes. Diante disso, venho buscando métodos para investigar objetiva e sistemticamente a estrutura informacional em textos históricos – e constato que, nos anos mais recentes, autores proeminentes na linha da pesquisa em sintaxe histórica fundada na análise de padrões estatísiticos em grandes bases de dados tem focado o mesmo problema: em particular, Pintzuk 2014 e Taylor & Pintzuk 2012b, 2014 discutem as possibilidades de se testar a teoria da relação entre a sintaxe e a estrutura informacional em um quadro investigativo consistente.

Procurei aqui portanto, em resumo, apontar os principais avanços e os principais entraves das pesquisas realizadas até o momento com base nos relatos quinhentistas portugueses do ponto de vista gramatical, e justificar preliminarmente o encaminhamento planejado nesse aspecto no novo Projeto, que será focado nesses aspectos em seu primeiro ano. Entretanto, as pesquisas anteriores com os textos dos relatos fizeram vir à tona, também, problemas na dimensão filológica. A esses problemas já dedicamos alguns estudos preliminares, que compuseram uma proposta de abordagem a ser levada a cabo ao longo do Projeto nos anos que se seguirão ao estágio a que remete a presente proposta. Entretanto, como esse tratamento se une de modo orgâncio à metodologia para investigação linguística dos textos, discuto-os também resumidamente a seguir, antes de apresentar o desenho geral do Projeto.


2.1.2 Os problemas na dimensão filológica dos textos

Os aspectos centrais da gramática do Português Clássico investigados na trajetória anterior dessa pesquisa, resumida até este ponto, tem um fator importante em comum: boa parte das construções tomadas como mais características da propriedade de Proeminência à esquerda foram encontradas em textos de um mesmo gênero e de uma mesma época – os relatos de viagens, ou crônicas, quinhentistas. No trabalho estatístico sobre os dados do Corpus Tycho Brahe, notamos também uma diferença considerável nos padrões de ordem de palavras desses textos, em contraste com outros gêneros coetâneos e textos do século seguinte. Note-se, entretanto, que minha investigação gramatical toma a sintaxe desses textos como representativa de características fundamentais da língua portuguesa do período de formação do Português Brasileiro. Assim, ao longo dos anos, tornou-se crescente minha preocupação quanto à representatividade do universo documental que alicerçava a pesquisa, levando-me a investigações sobre o contexto histórico de produção dessas obras e a qualidade filológica das versões utilizadas – vindo a causar, como mostro aqui, grande impacto no prosseguimento da pesquisa.

Esse trabalho na dimensão filológica e historiográfica contextualizou-se no projeto de pesquisa docente conduzido entre 2009 e 2014, “A Língua Portuguesa, 1400-1600: Aspectos de História e Gramática” (Paixão de Sousa, 2009), que tinha por objetivos, além de dar continuidade à investigação gramatical dos anos anteriores, aprofundar a pesquisa histórica sobre o português escrito nos séculos XVI e XVII, e produzir edições filológicas eletrônicas a partir de versões confiáveis. Nesse sentido, obtivemos importantes progressos, em particular, graças a uma relação de colaboração com a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da Universidade de São Paulo, cujo acervo abriga obras importantes do período colonial. Nesse contexto, conduzi alguns sub-projetos de curta duração, produzindo edições filológicas de textos do acervo, e formei, em 2011, o grupo de pesquisas Humanidades Digitais (humanidadesdigitais.org), dedicado a debater o campo de confluência entre objetivos humanísticos e tecnológicos de pesquisas – caso emblemático do trabalho filológico em meio digital. Além dos projetos de edição (cf. humanidadesdigitais.org/projetos/filologia), outros estudos preliminares sobre os relatos quinhentistas portugueses concretizaram-se nesse período graças aos trabalhos do pequeno grupo de pesquisadores pós graduandos sob minha orientação – destacando-se os de Miranda (2009 e em curso), que inaugurou o estudo de uma das obras deste Projeto, a de Gabriel Soares de Sousa; de Menezes da Silva (2010 e em curso), com um estudo longitudinal de crônicas portuguesas e relatos quinhentistas; de Lombardo (em curso) e Lombardo et al. (2013) sobre o valor historiográfico do gênero para os estudos da língua. Somados à minha experiência anterior com o estudo gramatical dos textos, o acompanhamento do trabalho dos alunos, os debates e seminários no contexto do grupo de pesquisas, trouxeram à tona questões desafiantes sobre a historia e a trajetória editorial dos relatos de viagem.

O ponto que talvez revele com maior clareza essas questões seria o da semelhança que observamos entre alguns desses textos – quanto ao recorte dos temas tratados, quanto a certas escolhas lexicais, e, em alguns pontos, na forma de uma notável identidade de construções. Ilustro aqui o problema com quatro passagens que produzem um efeito sutil de “eco” – efeito delicado, não necessariamente ligado à construção da frase, mas sim às escolhas temáticas, lexicais e semânicas. São trechos dos capítulos sobre “os animais da terra”, em quatro textos (a edição de 1576 de Gandavo; a cópia manuscrita, supostamente também da obra de Gândavo, datada de 16–; a edição de 1925 de Cardim, e as Informações de Anchieta, na edição de 1886), apresentando “o Tatu”:

  1. Outros há também nestas partes muito para notar, e mais fora da comum semelhança dos outros animais (a meu juízo) que quantos até agora se tem visto. Chamam-lhes Tatus, e são quase tamanhos como leitões: tem um casco como de cágado, o qual é repartido em muitas juntas como lâminas e proporcionado de maneira, que parece totalmente um cavalo armado. Tem um rabo comprido todo coberto do mesmo casco: o focinho é como de leitão, ainda que mais delgado algum tanto, e não bota mais fora do casco que a cabeça. Tem as pernas baixas, e criam-se em covas como coelhos. A carne destes animais é a melhor e a mais estimada que há nesta terra, e tem o sabor quase como de galinha. (Gandavo, ed. impressa de 1576)
  2. Uns bichos há nesta terra que também se comem e se tem pela melhor caça que há no mato. Chamão-lhes Tatus são tamanhos como coelhos e tem um casco à maneira de lagosta como de cágado, mas é repartido em muitas juntas como lâminas, parece totalmente um cavalo armado, tem um rabo do mesmo casco comprido, o focinho é como de leitão, e não bota mais fora do casco que a cabeça, tem as pernas baixas e criam-se em covas a carne deles tem o sabor quase como de galinha. Esta caça é muito estimada na terra. (Gandavo, cópia manuscrita apógrafa de 16–)
  3. Tatu. — Este animal he do tamanho de hum leitão, de côr como branca, o focinho tem muito  comprido, o corpo cheio de humas como lâminas  com que fica armado, e descem-lhe huns pedaços  como têm as Badas. Estas lâminas são tão duras que nenhuma frecha as pode passar se lhe não dá pelas ilhargas; furão de tal maneira, que já aconteceu vinte e sete homens com enxadas não poderem cavar tanto, como huma cavava com o focinho. Porém, se lhe deitão água na cova logo são tomados; he animal para ver, e chamão-lhe cavallo armado: a carne parece de gallinha, ou leitão, muito gostosa, das pelles fazem bolsas, e são muitos galantes, e de dura; fazem-se domésticos e criâo-se em casa. Destes ha muitas espécies e ha grande abundância. (Cardim, ed. 1925)
  4. Também ha outro animal muito vulgar entre nos (Tatu), que mora nos campos, em buracos no chão,  pela cauda e cabeça parecido com os lagartos; todo o  corpo é coberto, por cima, de uma duríssima casca, impenetrável ás flechas, muito similhante á armadura de um cavallo : para se defender, cava a terra, com muita velocidade ; quando, porém, entra nos buracos, si o não segurarem pelas pernas, inutilmente se fatigarão ao quererem tiral-o dahi, tão pertinazmente se agarra ás paredes  do buraco, com a casca e com as patas ; e posto que o  segurem pela cauda, mais fácil é arrancar a esta do corpo,  do que tiral-o do buraco : a sua carne é muito saborosa. (Anchieta, ed. 1886)
Gravura em Staden, 1557: Die Figur Dattu

Gravura em Staden, 1557: Die Figur Dattu

Vejamos as semelhanças mais flagrantes: em primeiro lugar, todos os textos comparam o tatu, de alguma forma, o a um cavalo armado (ou seu casco à armadura de um cavalo); além disso, os dois textos atribuídos a Gandavo e o texto atribuído a Cardim remetem a alguma semelhança entre o tatu e um leitão: Gandavo 1576 e Cardim quanto ao tamanho do animal; Gandavo 16— quanto ao seu focinho. De fato, nesse último texto, quanto ao tamanho o tatu seria mais semelhante a um coelho; já para Gandavo (1576) e Cardim, a comparação com coelho aparece quanto à forma como os tatus se criam em covas; nos três textos, o casco do tatu lembra o de um cágado, e a carne do tatu é descrita como saborosa, e semelhante à de galinha – mas também à de leitão, para Cardim… Desenha-se, assim, uma “dança de símiles”, muito comum nos textos que estudamos, e que foi o primeiro fator a despertar a curiosidade sobre uma possível contaminação entre essas obras. Não seria, talvez, um fator suficiente – é bem possível que a semelhança entre os textos nesse aspecto revele nada mais que a subordinação inevitável de todos esses autores à contingência de tentar explicar um mundo novo – novos animais, novas plantas, novas paisagens– a partir do sistema nocional e representacional europeu do renascimento (de fato, nesse ponto somos remetidos a M. Foucault, quando ele discute, no capítulo Representar, de As palavras e as coisas, o universo reverberante das símiles renascentistas – cf. Foucault, 1966[2005]). Nesse sentido, se a nós, leitores contemporâneos, parece peculiar que tantos autores usem a imagem do “cavalo de armadura” para descrever um tatu, isso talvez fosse a imagem mais imediata e natural para um homem do século XVI (de fato, é dessa imagem, sabemos, que vem o nome dado pelos castelhanos ao “tatu” – i.e., “armadillo”).

Gravura em Gandavo, 1576 - Cap. IX:  Do monstro marinho que se matou na capitania de Sam Vicente no anno de 1564

Hipupiára. Gravura em Gândavo, 1576 – Cap. IX: Do monstro marinho que se matou na capitania de Sam Vicente no anno de 1564

Ainda assim, o fato é intrigante: quanto mais lemos esses textos, mas temos a sensação de que eles se organizam em torno de certos “lugares comuns”. Uma pesquisa preliminar motivada por essa observação mostrou que essa característica é discutida por alguns autores importantes da historiografia e em alguns estudos críticos, seja atribuindo as semelhanças à formação ideológica e retórica comum de autores coetâneos (como Azevedo, 2000 quanto ao tratamento dado aos indígenas nas obras; e Azevedo, 2009 quanto à história do “monstro marinho”, o “Ipupiára”, abordada com muitos pontos de contato em diferentes relatos quinhentistas), seja questionando a relação de autoria entre os textos.

Nesse último aspecto, um universo instigante de investigação foram os prefácios de algumas das edições oitocentistas das obras, nos quais os editores apontam e discutem semelhanças que vão muito além da potencial coincidência de temas e símiles. Por exemplo, no prefácio a Cardim (1925:30-31), o editor Rodolpho Garcia discute o enigma da relação entre esse texto e as Informações de Anchieta, observando que os dois “têm entre si muitos pontos de contacto, que se verificam ás vezes pela conformidade dos conceitos e mesmo pela identidade de phrases”, fato que levava não só à discussão da possibilidade de contaminação entre os textos, mas mesmo à dúvida sobre a autoria de cada um. A discussão, nesse prefácio, é resolvida tomando-se o ponto de vista de Capistrano de Abreu, segundo quem Anchieta teria copiado “insensivelmente” Cardim; e o editor encerra o caso afirmando que, ao longo do volume, assinalará as semelhanças em notas. Um exemplo dessas assinalações está na página 36 da edição de 1925, no final do trecho inicial do tratado sobre o Clima; ali anotou Garcia: “(1) Conf. Anchieta – Informações do Brasil (Rio de Janeiro, 1886), ps. 45/46”. Ao consultar a edição referida, encontrei, o relato do clima por Anchieta; seguem dois pequenos trechos, lado-a-lado:

(15)
CLIMA. DO CLIMA E TERRA DO BRASIL
O clima desta província do Brasil O clima do Brasil
é geralmente muito temperado, geralmente he temperado
de bons e delicados ares mui sadios, de bons, delicados, e salutiferos ares,
aonde os homens vivem muito, donde os homens vivem muito
até oitenta, noventa e mais annos, até noventa, cento e mais annos,
e a terra esta cheia de velhos e a terra he cheia de velhos
(Anchieta 1886:45-46) (Cardim 1925:36)

Ora, se nos trechos com proximidade temática e semântica, como os das símiles em torno do Tatu, sentimos formar-se lentamente uma sensação difusa de “eco”, em pontos como esse sobre o clima em Cardim e Anchieta temos, postivamente, a sensação nítida de estarmos lendo “o mesmo texto”. Coloca-se aqui uma questão bem crua: e se estivermos? Ou seja, e se, por algum caminho, esses primeiros relatos sobre o Brasil tiverem se contaminado uns aos outros, seja por um processo de imitação “insensível”, seja, de fato, como cópias superficialmente reformuladas? As consequências disso para a historiografia do Brasil são, para mim, assunto fora de alcance; entretanto, suas consequências para meus trabalhos sobre a sintaxe diacrônica da língua portuguesa seriam muito claras – e desastrosas. Isso significaria que os padrões gramaticais que venho encontrando nos textos do século XVI em geral – mas, muito caracteristicamente, nesses relatos dos primeiros viajantes – estariam explicados por serem, em algum plano, representantes da sintaxe de um mesmo indivíduo, refletida em subsequentes trabalhos de cópia, e não um padrão geral da língua escrita por diferentes autores da mesma época, como os venho tratando. A dimensão e a seriedade dessas consequências motivou uma pesquisa bibliográfica na qual eu pretendia, apenas, levantar o campo bibliográfico de cada uma das obras, incluindo a fortuna crítica de estudos que tivessem se debruçado sobre esse problema, e finalmente recensear os melhores testemunhos manuscritos, nos quais eu passaria a basear os estudos sintáticos.

Essa pesquisa, entretanto, revelou-se surpreendentemente desafiadora: o levantamento (publicado em historiasdobrasil.net/levantamento-bibliografico) mostrou que essas obras formam um campo disperso e não exaustivamente estudado das perspectivas bibliográfica[6] e filológica. Há algumas edições críticas autorizadas disponíveis (como Azevedo, 2009 para Cardim) mas muitos estudos – em particular na área da história – fundam-se nas edições oitocentistas que formam o cânone da literarura de viagem. Na área da linguística, estudos mais recentes, como Gonçalves (2007) ou Berlinck (2007), têm trabalhado diretamente nos códices manuscritos mais confiáveis, em se tratando do texto de Cardim; para os outros textos, o acesso aos manuscritos é menos direto. Por fim, não encontramos estudos críticos que cotejassem diferentes versões de cada obra nem as obras entre si. Diante dessa lacuna de estudos especializados, em um primeiro momento, cogitei realizar comparações pontuais entre as diferentes versões disponíveis segundo as indicações da fortuna crítica de cada obra – como fiz acima para os trechos de Cardim e Anchieta – sobretudo considerando que muitas das versões estão, hoje, disponíveis como arquivos digitais com acesso aberto. Entretanto, esse trabalho seria extremamente longo e penoso, pois, se é verdade que esses textos estão disponíveis na rede mundial de computadores, é verdade também que ali se encontram em forma caótica e dispersa, sem uma união lógica entre eles que possa facilitar remissões. Isso se agrava por uma segunda dificuldade, mais profunda: se, no caso das passagens sobre o clima, a “identidade de phrases” entre dois textos me foi apontada pelo olhar atento de Rodolpho Garcia, no caso das passagens sobre o Tatu, por exemplo, a percepção do “eco” entre os textos levou anos de leitura e contato com os textos para se desenhar. Assim, o problema filológico da não-confiabilidade das versões e da falta de edições críticas é agravado pelo problema bibliográfico da dispersão das versões, e se torna ainda mais desafiador pela delicadeza dos paralelos entre os textos, mais semânticos que estruturais, que impede uma comparação pontual direta e faz ver, por fim, a relevância de um estudo comparado mais completo.

Nessa seção, apontei os dois problemas principais observados nas investigações realizadas entre 2004 e 2014 sobre os relatos quinhentistas: o problema teórico e metodológico de demonstrar a hipótese da relação entre a estrutura informacional e a sintaxe nesses textos, que descrevi no início; e o problema filológico da representatividade e autoria das obras, agravado pela constatação da dispersão de seu campo bibliográfico, de que tratei por último. O projeto Histórias do Brasil surge, justamente, como proposta para enfrentar esses dois desafios em uma abordagem informática orgânica, como sugiro abaixo.


2.2 Proposta de abordagem no Projeto Histórias do Brasil

A ideia fundamental do Projeto Histórias do Brasil é explicitar, por meio de representações computacionais, os diversos aspectos dos textos de Magalhães de Gandavo, Fernão Cardim e Gabriel Soares de Sousa observados no decorrer de pesquisas anteriores, mas que permanecem, até o momento, como impressões subjetivas – incluindo-se tanto os aspectos gramaticais (a hipótese da “proeminência à esquerda”) como os aspectos textuais que parecem remeter as três obras umas às outras (a semelhança formal e temática entre elas). O resultado esperado com essa pesquisa é o aprofundamento do conhecimento sobre as obras atribuídas a esses três autores no que remete às relações entre a história de sua produção e a construção de cada texto, e no que toca sua representatividade no quadro geral da gramática do Português Clássico. O produto mais imediato e palpável do projeto será um Portal que reunirá os resultados das diferentes etapas da organização da informação e sistematização editorial dos textos, formando uma rede de informações ligadas em torno das obras, de sua tradição editorial e de sua fortuna crítica – em formato aberto, favorecendo o acesso da comunidade de pesquisas aos resultados do trabalho. Esse Portal terá duas camadas básicas: primeiro, um corpus eletrônico, composto por edições filológicas digitais de diferentes versões de cada obra[7], anotadas nos planos morfossintático, sintático e de estrutura informacional, formando um material adequado para estudos filológicos críticos e de investigação linguística com recursos computacionais. Segundo, um plano de funcionamentos remissivos, no qual cada obra estará ligada à sua fortuna crítica, e a itens de iconografia e cartografia tematicamente relacionados; e que se abre a possibilidades de estudo mais amplas. O planejamento detalhado do Projeto está em historiasdobrasil.net; aqui, ressaltamos sua ideia geral e os aspectos mais relevantes para justificar a etapa inicial da pesquisa, ligada à proposta de fomento.

Para compor um desenho geral do tratamento de textos a ser desenvolvido, começo retomando do ponto que terminamos a seção anterior, sobre a necessidade de se comparar as diversas obras entre si e também suas diferentes versões ao longo do tempo, que se depreende dos problemas filológicos apontados na seção anterior. Observemos um problema interessante: as diferenças nas estruturas deses textos impedem que essa comparação se funde numa contraposição direta dos textos em sua sequência concreta, como em uma colação tradicional, ou em um corpus paralelo tradicional – de fato, o “paralelismo”, aqui, não é primordialmente estrutural, e sim temático. Portanto, a melhor forma de construir uma colação entre esses textos seria tomar como ponto em comum, ou “âncoras”, os temas tratados, não a estrutura ou a sequência material dos textos. Na pesquisa preliminar para o Projeto, ao investigar as possibilidades técnicas de uma colação de textos ancorada tematicamente, percebi que isso se combinaria de modo harmonioso com o outro objetivo da pesquisa – descrever e analisar a estrutura informacional desses textos. A combinação desses objetivos se concretizará em uma anotação de cadeias referenciais ancoradas em entidades nomeadas, que a um tempo permitirá analisar a estrutura informacional dos textos e compor um índice remissivo de temas que fundará a comparação sistemática entre as obras e entre as versões de cada uma.

Para ilustrar o problema e a abordagem encontrada, imaginemos uma comparação entre dois capítulos específicos de dois textos do corpus, os capítulos sobre os “animais da terra” nas obras de Gandavo (ed. 1557) e Cardim (ed. 1925). Notemos então que em seu  Capítulo 6Dos animais e bichos venenosos que há nesta província, Gandavo menciona dezoito animais, pelos seguintes nomes e na seguinte ordem: cauallos e egoas; gado; veados; porcos monteses; Antas; Cotias; Pacas; Tatús; coelhos; Tigres; Cerigoês; Perguiça; Tamẽdoás; Bogios; Sagoîs; cobras; lagartos. Cardim, no Capítulo Dos Animais, menciona dezenove animais, pelos seguintes nomes e na seguinte ordem: Veado; Tapyreté; Porco montês; Acati; Paca; Iaguaretê; Sarigué; Tamanduá; Tatú; Canduaçú; Aquigquig; Coati; Gatos bravos; Iaguaraçú; Tapiti; Iguacini; Biarataca; Preguiça; Ratos. As listas coincidem em dez itens – mas isso não é imediatamente perceptível, pois os animais recebem diferentes nomes em cada texto (sem falar na variação nas grafias); e, ainda, os animais são mencionados em diferentes ordens. Assim, para comparar os dois capítulos, não se pode tomar como base a estrutura dos textos (por exemplo, a sequência de parágrafos), e nem simplesmente fazê-lo com base na forma como cada animal é nomeado. Esse é, portanto, o problema. Uma solução interessante seria comparar os dois capítulos partindo de uma idéia mais abstrata, formando índices temáticos das obras, que remetessem às diferentes formas em cada texto. Tomando “animais da terra” como o grande tema comum aos dois capítulos, e cada um dos animais mencionados como um sub-tema, cada menção seria remetida a uma “âncora” indexada, como ilustrado aqui rudimentarmente.

Imagem 1

Figura 1

Figura 3

Figura 3

Figura 3

Na Figura 1 as âncoras estão à esquerda, e sua forma nomeada e sua posição na ordem dos tópicos em cada texto, à direita; assim, Antas e Tapyreté remetem a [anta]; Tigres e Iaguaretê a [onça], etc.

A Figura 2 mostra um desdobramento possível: esse índice pode levar à identificação de traços comuns no tratamento de cada tema em cada texto – por exemplo, [tatu] levaria às símiles com leitões, cavalo armado e galinha. Mas note-se, nessa figura, que o termo “Tatu” não está explicitamente mencionado nas construções listadas como relativas a [tatu] ( “_ são quase tamanhos como…” ou “este animal é do tamanho de um…”). De que forma, então, “este animal”, e a lacuna em “_ são quase…” remeteriam a [tatu]?

Essa remissão se tornaria possível se fundada numa anotação de cadeias de referentes, cuja representação rudimentar está na Figura 3. Na representação em 3, os constituintes que remetem a [tatu] estão indexados como “i”, sejam sintagmas nominais ([Este animal]), pronomes ([lhe]) ou categorias vazias (os sujeitos de [são], [parece], [tem]).

A essa representação rudimentar corresponde uma anotação linguística dos aspectos sintáticos e informacionais do texto, que formará a base do corpus, e será desenvolvida no primeiro ano do Projeto (cf. 3.2.1).

A proposta, portanto, é compor índices remissivos fundados na anotação linguística – sintática e de estrutura de informação – ou seja, formar o índice temático a partir de um corpus eletrônico anotado, formado pelos textos e suas diferentes versões com edição filológica digital e anotação linguística semi-automatizada. Importa ainda apontar algumas vantagens e repercussões da opção por construir esse sistema remissivo como uma representação computacional e não em moldes analógicos tradicionais. Essa opção justifica-se centralmente pelo fato de podermos formar assim um produto transferível, permanente, que ficará como legado para pesquisas posteriores da comunidade acadêmica – sejam pesquisas que refaçam e refutem nossas hipóteses, sejam pesquisas sobre aspectos fora de nossa área de especialidade (no caso, salientemente, na área dos estudos do léxico). De fato, a grande vantagem do trabalho com corpora eletrônicos anotados é que neles, as análises linguisticas são explicitadas, e podem vir a ser retrabalhadas por outros (cf. Paixão de Sousa, 2004). No caso desse Corpus, de partida, sabemos que um dos seus desenvolvimentos tecnológicos – a anotação de estrutura informacional – será aplicado futuramente aos textos do Corpus Tycho Brahe, de cuja equipe faço parte desde 1998. Além disso, os produtos criados pelo tratamento editorial eletrônico aqui desenhado poderia ultrapassar os limites da comunidade científica dos estudos linguísticos e de corpus, fazendo-se interessantes para a pesquisa historiográfica e, talvez, para o público geral, pois a apresentação do Portal propiciará um acesso mediado aos textos, modernizados e hiperligados entre si. Os produtos digitais das pesquisas acadêmicas, quando concebidos no paradigma do acesso aberto, cumprem ainda, portanto, uma função de retorno social.

Importa salientar por fim, sobre o planejamento geral do Projeto, que sua concretização depende de metodologias em diferentes graus de maturidade. A primeira metodologia consolidada é o sistema de edição filológica, que seguirá os moldes por mim desenvolvidos em anos recentes e consolidado pelo uso do software de edição filológica e etiquetação morfossintática eDictor (Paixão de Sousa, Kepler e Faria, 2013), atualmente em uso por diversos projetos de pesquisa no Brasil e em Portugal (cf. edictor.net). Também quanto à anotação sintática seguiremos uma metodologia reconhecida e consolidada, o sistema do Corpus Tycho Brahe (Galves, 2012). De fato, os dois sistemas funcionam de modo complementar, como exposto em Paixão de Sousa (2014), permitindo uma abordagem computacional bastante aprofundada dos textos. Nesse sentido metodológico, uma área nicipiente no Projeto é a anotação de estrutura informacional. O planejamento das etapas da pesquisa levou em consideração essas contingências metodológicas: assim, iniciaremos o projeto pelo desenvolvimento das áreas mais imaturas metodologicamente. e depois conduziremos as etapas de aplicação de técnicas conhecidas. Prevê-se que o Projeto compreenda seis anos de trabalhos, intercalados pelo lançamento de três versões do portal (beta em 2016, 1.0 em 2018, e 2.0 em 2020).

A etapa inicial, prevista para o ano de 2015, será dedicada ao desenvolvimento da anotação de estrutura informacional e ao estudo da relação entre a sintaxe a estrutura informacional em um texto-piloto. O estágio incluído nesta proposta de fomento compreende o alcance essas duas metas, como detalhado a seguir.

Notas

[1]Esperamos que com tantos desenganos se lhe abram os olhos, e que acabem de vir em algum acomodamento, que sempre será melhor que a continuação da guerra, e nos deixará mais hábeis para fazermos outros, que tanto nos importam. Duarte Nunes me avisa tem comprado sessenta peças de boa artilharia para as duas naus, mas não diz o calibre: fala com grandes temores do grande empenho em que se tem metido, receando que faltem as assistências de Portugal; e verdadeiramente que é matéria digna de grande admiração que venham cada dia navios de tantos portos do Reino, e que, tendo os mais tristes mercadores avisos de seus correspondentes, só aos ministros de S. M. faltem, sendo tantos e de tanta importância os negócios que aqui se tratam. Jerónimo Nunes me escreveu hoje tivera carta de V. Ex.a. com recado de virem as letras no correio seguinte, e por isso o não torno a lembrar a V.Ex.a. .”. Vieira, Cartas – Corpus Tycho Brahe.

[2]Despedido o mensageiro com esta reposta, e quase assombrado dos feros e juramentos com que o capitão-mor retificou algumas vezes isto que lhe dissera, chegou onde a rainha estava, e lhe encareceu a resposta que trazia de tal maneira, que a fez ter para si que por causa desta galé sem dúvida perderia muito cedo o seu reino, pelo qual lhe era muito necessário trabalhar todo o possível, por não ficar de quebra com capitão-mor. E tomando sobre este caso conselho cos seus, lhe tornou a mandar outro recado por um brâmene muito seu parente, e homem já de dias, e de aspecto grave e autorizado, o qual foi bem recebido do capitão-mor, e depois de fazerem suas cerimônias de honra e cortesia lhe disse o brâmene. Se me deres, senhor, licença para que fale, abrirei minha boca diante de tua presença, e da parte da rainha minha senhora te direi o a que venho. O capitão-mor lhe respondeu que os embaixadores tinham seguro para suas pessoas, e licença para dizerem livremente o a que eram mandados, pelo que sem nenhum receio podia falar o que quisesse. O brâmene lhe deu por isso seus agradecimentos, e lhe disse: …”

[3]Pero de Faria em me vendo da maneira que vinha, ficou como pasmado, e me disse com as lágrimas nos olhos, que falasse alto, para saber se era eu aquele, já que na dessemelhança e disformidade do rosto, e dos membros lho não parecia. E como havia já mais de três meses que não sabiam novas de mim, e me tinham por morto, acudiu tanta gente a me ver, que não cabia na fortaleza, perguntando-me todos com as lágrimas nos olhos pela causa da desaventura em que me viam, e dando-lhes eu conta muito miudamente de todo o sucesso da minha viagem, e do infortúnio que nela passara, ficaram todos tão admirados, que sem falarem, nem responderem coisa alguma se saíam benzendo do que me tinham ouvido. E provendo-me então os mais deles com suas esmolas, como naquele tempo se costumava, fiquei muito mais rico do que antes era. Ao mercador que me trouxe mandou Pero de Faria dar sessenta cruzados, e duas peças de damasco da China, e lhe mandou em nome de El-rei quitar os direitos de sua fazenda que devia na alfândega, que seria quase outro tanto, e em coisa nenhuma lhe foi feito nenhum agravo, de que ele ficou muito satisfeito e contente, e se deu por bem pago da veniaga que comigo fizera. A mim me mandou o capitão agasalhar em casa de um escrivão da feitoria, por ser casado na terra, e lhe parecer que aí seria melhor provido que em outra nenhuma parte, como na verdade fui.”Fernão Mendes Pinto, Perigrinação – Corpus Tycho Brahe.

[4]Era este Conde Dom Anrique muito discreto, e esforçado Cavaleiro, e não menos de todas outras bondades comprido, trazia em seu Escudo de Armas campo branco sem outro nenhum sinal, e andando sempre depois, na guerra dos Mouros com El-Rei Dom Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias, por onde Del-Rei, e de todos os da terra era muito estimado, e querido, e assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de São Gil de Proença, e tendo El-Rei assi deles contentamento querendo honrá-los, e remunerar seus nobres feitos, e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra contra os infiéis, determinou de casar três filhas suas com eles, uma chamada Dona Urraqua, casou com o Conde Dom Reymão de Tolosa, de que depois nasceu El-Rei Dom Affonso de Castela chamado também Imperador, donde descendem também todos os Reis de Castela , outra Dona Elvira , casou com o Conde Dom Reymão de São Gil , de Proença; outra chamada Dona Tareja deu por mulher a Dom Anrique sobrinho do Conde de Tolosa, dando-lhe com ela em casamento Coimbra, com toda a terra até o Castelo de Lobeira,….” Duarte Galvão, Cronica d’El Rei D. Afonso, Corpus Tycho Brahe.

[5]Polvos — O mar destas partes he muito abundante de polvos; tem este marisco hum capello, sempre cheio de tinta muito preta; e esta he sua defesa dos peixes maiores, porque quando vão para os apanhar, botão-lhes aquella tinta diante dos olhos, e faz-se a agua muito preta, então se acolhem.Fernão Cardim, Tratados da terra e gente do Brasil (1584 [1925])

[6] Nesse sentido, note-se que a trajetória editorial dessas três obras apresenta um traço em comum: produzidas nos anos 1500, elas só serão impressas ou re-impresas (no caso de Gandavo) no século XIX – não havendo informações seguras sobre sua circulação nos dois séculos intermediários – cf. o resumo das trajetórias em historiasdobrasil.net/trajetorias .

[7] Especificamente, entre as vinte e seis versões disponíveis segundo nosso levantamento inicial, editaremos as dezoito que já se encontram em domínio público (publicadas entre 1557 e 1925) – cf. o levantamento completo, em historiasdobrasil.net/levantamento-bibliografico.

[8] O levantamento dessa bibliografia está publicado em historiasdobrasil.net/biblioteca/estrutura-informacional


Histórias do Brasil:
Trajetória editorial e mapeamento linguístico de relatos de viagens quinhentistas em um corpus anotado de informações ligadas

Janeiro, 2015

Referências

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